24 de ago. de 2008

Maldita vaidade


Sai do trabalho com uma missão: comprar o presente de minha prima. O aniversário estava marcado para 20h. Fui ao shopping Barra, mas não precisei rodar a procura do algo que lhe agradasse. Olhei a calça branca com alguns brilhos na frente e detalhes, pequenos traços em preto nos bolsos de trás. É essa! A fila do caixa para minha felicidade estava praticamente vazia. Havia um casal na frente, só. Paguei. Ao seguir em direção ao estacionamento precisei subir três vãos de escada rolante. Na última, ao virar a esquerda, deparo-me com a luxúria: o salão. Ah, salão de beleza, estabelecimento que toda mulher adora, eu, entretanto, abomino. Era como se todos os serviços oferecidos ali estivessem querendo se apossar de mim. “Entre, entre, venha, venha”. Os pensamento martelavam na minha mente como zumbindo de música quando escutada próxima a uma caixa de som. Zummm. Irritante!

Frações de segundos, três passos a diante e estava eu dentro daquele mundo ilusório. Sabia que custaria uma fortuna. Enfim, queria ser rica, uma vez na vida. Me senti igualzinha àquela senhora de 45 anos fazendo unhas ao preço de 25 reais. Sem perguntar o valor de nada pedi para cortar o cabelo. Sentei e veio Patrícia. Uma simpática morena, magra, de cabelos crespos com escova definitiva. Fiquei na dúvida, quase levanto. Não era aparência dela. É que estou em crise com os meus próprios cabelos. Eles estão inchados. Não posso mais dar escova inteligente, definitiva, progressiva, tanto avanço, em mim nada pegou. Confiei em Patrícia. Afinal, dizem que cortar cabelos rejuvenesce e renova as energias. Precisava dessa transformação. Cada fio caído era um pedaço meu que despencava. O apego estava ali.

Porquê salão de rico demora tanto para tirar algumas madeixas? Uma hora. Pega dali, estica daqui, troca de tesoura, lava cabelo, volta pra retocar o corte. Aquilo tudo me sufocou. Mas tinha que manter a linha. Do meu lado direito chegou uma dondoca. A mulher tinha uns 60 anos. Unhas postiças, cabelos ruivos grandes, até agora me pergunto se não era uma peruca, o rosto todo de botox. Chegou falante e exigindo. A cabeleireira faz sinal para Patrícia. Expressão de: “Nossa vem aí à chata”. Meus olhos fitaram o espelho, os cabelos estão acima dos ombros. Derramei uma lágrima sem ninguém notar. Disfarcei com elegância. Patrícia começa a escovar. Aos poucos os meus doces cabelos castanhos ganham formato. A auto-estima cresce.

 O corte chanel tirou as pontas quebradas, ficou com mais volume. Na hora da conta, Patrícia facilitou, viu minha cara de pobre coitada e não cobrou a escova. Estar na mídia tem essas vantagens. Resultado. R$ 75,00. R$15 só da lavagem, coisa que faço rotineiramente em casa. Doeu no bolso. Mas o problema foi o dia seguinte. Ainda desfrutava do meu novo visual quando alguns pingos, depois a chuva destruiu o trabalho de horas. O cabelo encolheu! Esqueci que quanto mais curto, mais enrolado fica. Aí foram outras tantas horas na frente do espelho, em casa, decifrando o mistério da raiz. Formato, nascimento, crescimento. Os fios, metade liso ainda resquícios do tratamento para alisar, metade com ondas, obra do crescimento mês a mês, metralharam meus olhos como se dissessem. Não se desespere. Você será eterna escrava da chapinha.
Maldita vaidade!