- Vá com Deus Aline. Deus te abençoe.
Fecho a porto do carro e Ele vai embora . Na minha memória visual ainda está à imagem daqueles olhos miúdos cheios de lágrimas me pedindo alguns trocados. Na memória olfativa, ainda sinto o cheiro de comida podre, de madeira queimada, da cola e da fumaça impregnadas no corpo do moleque que, minutos atrás, me cercava como marimbondo em fúria pelo ninho destruído.
Carlinhos tem 13 anos. Cabelos tingidos de um amarelo encardido. As roupas sujas e rasgadas parecem ser as únicas. Nos pés, o chinelo desgastado pela ação do tempo. Nas mãos, segura um pote de cola e, subestimando minha inteligência medíocre, abusa de uma educação invisível para quem aprende, nas ruas, as lições da vida. Carlinhos se aproxima, sem ser hostil, e me trata como se fosse velha conhecida. Estava na Praça dos Mares em Salvador gravando uma passagem ( quando a repórter aparece em vídeo) para série de reportagem Infância Perdida. O cenário era perfeito para o meu texto. Precisava de um local onde houvesse meninos lançados à sorte. Lá encontrei não só o Carlinhos, mas uma dezena de outros meninos abandonados. O Carlinhos, sem dúvida, foi quem mais me cativou. Ele até gravou entrevista. Contou o seu drama. Uma história já de derrotas para quem começa a engatinhar na longa estrada da vida. Ele fugiu de casa porque apanhava da mãe e convivia com o alcoolismo do pai. Nas ruas aprendeu a cheirar cola e crack. No final da entrevista o menino me pediu para lhe pagar uma água de coco. Quando terminou de beber fez questão de me levar até o carro de reportagem, com o cuidado sensorial, de me salvar do atropelamento que seria inevitável devido a minha distração. Ele puxou meu braço com força de adulto me olhou e disse:
- Já pensou uma celebridade morta tão jovem
Fiquei sem ação. Apenas lhe dei um levo sorriso. Carlinhos se despediu pedindo, como um filho, que ainda não tive, para lhe tirar “desse mundo”. Pediu mais: que o encaminhasse a um centro de recuperação. Aquilo mexeu de uma forma comigo que prometi levá-lo para ser tratado. Não sei como farei isso, mas sinto que preciso mudar o rumo de uma criança sem destino, sem esperança, sem afeto.
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