24 de jul. de 2008

O tempo muda


15h.  O tempo não está bom. Um presságio, talvez. Ultimamente chove, faz sol, chove, aparece o arco-íris e sol de novo. A tempestade ainda está por vir. Recebo a ligação do chefe de reportagem.

-Aline, vá correndo para um protesto na Avenida Paralela.

Ao sair do Instituto de Mamíferos Aquáticos muito próximo do local da manifestação percebo o tamanho do problema. 15h:30m conseguimos chegar até a FTC, foi só. O engarrafamento já era absurdo. Até então a única informação é de que moradores fecharam à pista. Não passa nada. De um lado motoristas impacientes. Do outro, centenas de pessoas desistiram de esperar. Desceram do ônibus e continuaram a viagem a pé. Caminharam por quilômetros até o destino, sabe-se lá onde. Muitos arriscaram correr do nada para lugar nenhum. 15h:45m o engarrafamento é de 6 quilômetros. Por um dia a capital Bahia transformou-se em São Paulo, a Marginal Tietê dos baianos. E quanto mais os ponteiros do relógio giravam acelerados mais o caos era evidente. Para chegar até o protesto, em frente ao Bairro paz, tive que andar durante 20 minutos, de salto alto ainda por cima. Um senhor grita: É absurdo!

A mulher no táxi está desesperada perdeu o vôo para São Paulo e o taxímetro já marca R$90 reais e pelo visto sem perspectiva de parar de girar. Vejo a barricada de pneus e galhos de árvores pegando fogo. Ao fundo da fumaça escura surgem jovens, adultos, crianças, homens, mulheres, idosos. Uma única faixa diz: Estamos de luto. Escuto berros. Vozes eufóricas em uníssono ritmado.
“Cadê a polícia na hora da chacina....
“Cadê a polícia na hora da chacina.....
Nada como experimentar a sensação de viver num conflito armado. Tensão é pouco. Poderíamos ser mais uma vítima da violência urbana. De quem, do quê?

A barreira policial se forma. A população afronta. Sem negociar policias intercedem com truculência. Um rapaz é agredido. Estava sentado no chão da pista é retirado por um PM a força que o pega pelos cabelos e atira a cabeça do coitado no asfalto. 16:30 o confronto fica intenso. A polícia ameaça retirá-los do local e liberar a via. Cria-se um estado de guerra. O Major tenta controlar, mas os manifestantes são intransigentes, prometem liberar a avenida somente com a presença do Secretário de Segurança Pública da Bahia.

17:15 o policiamento é reforçado. Chegam homens da choque e PMs motorizados. Até o agrupamento aéreo sobrevoou a região. A noite cai e eles continuam incendiando a pista e a vida de milhares de cidadãos. Justamente esse clima sombrio e pessimista estimula os manifestantes, cerca de cem no máximo. O suficiente para fazer uma baderna. Uma desorganizada sem limites ao ponto de nenhuma pessoa se apresentar como líder comunitário. O reflexo do protesto no trânsito estende-se para Orla, Avenida Bonocô, Vasco da Gama e aeroporto. A cidade pára!

18h os manifestantes se abraçam. Fazem um cordão humano e andam juntos em direção ao bairro da Paz. A polícia se prepara para agir. Em uma das mãos, cacetete, na outra, gás lacrimogêneo. Em meio aos gritos de guerra, lá no fundo murmura a voz: "só queremos passar. Vamos embora". Policias não entendem e seguem em direção a comunidade rebelada. Outros gritos de parem, parem, parem se sucedem. Até que o Major entende e manda cessar a ação de confronto. Eles vão. Passam pelos militares enfurecidos, emburrados, doidos para meterem o pau. Eles vão unidos por um ideal, a Paz. Eles vão e param na entrada do bairro onde mais uma chacina aconteceu. Eles param ali, enquanto cinco resistentes seguem até a Secretaria de Segurança Pública.

Volto para redação com embrulho no estômago. Não sei se é fome, o balanço do carro ou enjôo. Retorno às 21h ainda há congestionamento. Em pouco tempo, três horas no máximo de rebelião dos libertos revoltados noto o quanto a população tem força para mudar e dominar.

21: 30 a cidade ainda sente o clima de mistério e negativismo. Chove forte. Venta muito. Subo cinco andares refletindo o ocorrido. Lentamente enfio a chave na maçaneta, abro a porta. Escuto sons repicados. A televisão está acesa, mas não há ninguém. Sento, observo ao redor. Lá está ele, o fundo opaco e vazio da solidão. Enterro-me silenciosamente, no conflito interno, só meu. O meu inferno astral.