16 de jan. de 2012

Já sofreu uma vez. Não sofre mais





"Adeus. Não a verei mais. Proteja sua alma contra ações semelhantes e realize melhor com os outro, aquilo que comigo não tem reparação. Não li sua carta, mas li demais.”
                                     

O desabafo em tom firme e dolorido é do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, após ser abandonado por Lou, seu grande amor. Nietzsche vivia um triangulo amoroso. Dividia Lou com seu amigo Paul Rée. Um tanto de modernidade para época, não?
                                   
Enfim, penso como o próprio filósofo: “ Aquilo que se faz por amor está  sempre além do bem e do mal”, mas quando você sofre uma vez por alguém, nunca mais volta a se machucar.


Primeiro, por que a situação lhe serviu de experiência de alguma maneira e, repetir o erro duas vezes é burrice. Segundo, por que a maturidade não traz apenas rugas e envelhecimento, mas também sabedoria e critérios para tomar as decisões certas.

Sofrer por amor é massa -  quem quiser fique a vontade para descordar – é sinal que você está vivo, que recebeu e, principalmente, doou afeto. E se doar é sensacional!   

O que quero dizer é que se a pessoa lhe traiu, não foi fiel ou leal contigo, te abandonou no altar, rompeu a relação sem dar satisfações ou tantas outras coisas, há um sentido nisso: o do aprendizado. 


O luto pós-fim-de-relação é ótimo, dói pra caramba, só que tem limite e prazo de validade, né?! Sobretudo, se você já passou por isso algumas vezes. Sabe como funciona, sabe o sentimento que vem depois, e ainda assim insiste em se acabar no choro? E pensar muito no cara ou na mulher que te deu um pé na bunda?  

Ora se algo que se foi não volta mais como reparar? Deixe o outro partir, do seu lado, também do seu coração e da sua mente. É difícil, está certo, impossível não é.

Olhe, vou dizer uma coisa: melhor, vou terminar com o filósofo que abriu o texto desse post:

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura”

Pensem! 



10 de jan. de 2012

Tomou um bolo? Relaxe!


Se você, homem, não pode cumprir com compromisso, não assuma.  Nunca marque com uma mulher programas bestas de início de relação, como jantar ou ir ao cinema, e depois, dê um de fantasminha camarada. A atitude é um pecado mortal. Você pode morrer no dia seguinte sem saber o motivo.  Mas as mulheres podem nominar: 

1 – Prometer algo, significa criar na mulher uma grande expectativa 

2 -  Viver de expectativa é péssimo. Porque, inconscientemente, você sabe que irá se decepcionar de alguma forma

3 - Se ela já estiver envolvida com o cara, pior ainda 

4 -  Ela é capaz de cancelar todos os compromissos para esperar a sua ligação. E ficar horas olhando o celular

5 - E se o cara não ligar e nem mandar mensagem é praticamente o fim de algo que nem começou direito

6 - Dependendo da relação,  pode rolar, até uma depressão profunda

Tomar bolo é comum, minha gente. Releve, mas também nem tanto. Tudo tem limite. Uma, duas, até vai. Na terceira, aí fica difícil. É  a prova de que o jogo da sedução vai de mal a pior, ou, o cara, simplesmente, não tem qualquer consideração com você.  Ele te convidou para sair, ótimo! Mas demorou a ligar, não chegou em sua casa e passou dois dias sem dar notícias, algo errado tem. Tudo bem, não foi a coisa mais esperta que ele fez, também, ficar com ele não será a coisa mais inteligente a se fazer, né?!  Quem quer na vida comer bolo solado? Os fofinhos são os mais gostosos. 

3 de jan. de 2012

O que fazer depois de uma noite bacana?

Nada. Não faça absolutamente nada. Ou, faça tudo. Com a gente ficou no meio termo. Não rolou sexo. Nem mão boba. Apenas carinhos, carícias e uma troca de sinergia especial. Sabe quando o beijo combina, quando a conversa rende horas a fio e você acaba esquecendo a dor no pé daquele salto alto insuportável? Pois é, foi assim. Na verdade, nem sei como aconteceu o primeiro beijo, nem  o último. Mas eu estava ali, embevecida pelo seu cheiro indecifrável.  Eu estava ali, aberta para qualquer sentimento fútil que pudesse surgir. E apareceu. Uma espécie de romance “nove semanas e meia de amor”, onde tudo é rápido e efêmero como num piscar de olhos.  Em apenas nove horas vivemos uma vida inteira: olhamos-nos,  fui apresentada, trocamos telefone, namoramos, me dei super bem com os amigos dele, fiquei de conhecer a irmã, mas daí, ele preferiu me prevenir de que adora vídeo-game e eu, dos meus livros. Escolhemos os padrinhos de casamento, dançamos, bebemos,  subimos ao altar, engravidei, tive um menino, não aceitei ele ter escolhido o amigo mala para ser padrinho, tivemos a primeira DR, nos separamos só para ir ao banheiro fazer xixi, voltamos com muitas juras de amor e, até, com direito a elogios aos meus pés que lá pelas tantas da madrugada estavam descalços. Cansei. Aí então sentei no colo, conversamos, rimos de tantas bobagens até não agüentarmos mais, fiz cafuné, ele pegou água e fomos expulsos. Acabou.  

A noite haveria de ter acabado. Até a surpresa final: fui embora do salão carregada, no colo pronta para as bodas de prata. Dei carona, ele ficou em casa e quando cheguei na minha liguei para me certificar de que não tinha sido um sonho. E realmente não era. Do outro lado da linha ele atende e diz:

- Chegou bem?

Acordei desacreditada e, novamente, quis uma confirmação. Mandei mensagem para o celular  e, opa! Ele respondeu. Ufa! Nada de imaginação, isso, eu tinha plena convicção, só não tinha certeza de como seria daqui por diante. Depois de uma noite inesquecível onde parece que nos conhecemos há anos, o que fazer? A primeira pergunta que vem a mente é: será que ele sentiu o mesmo? 

A sensação é de estar numa via de mão única. Tudo bem, os especialistas em relacionamentos dirão que a pressa é inimiga da perfeição ou que o tempo se encarrega de resolver. Não. Não acho que devemos deixar as coisas acontecerem por acaso. Podemos ao menos se esforçar para tentar algo. Só que,  o mais bacana dessas nove horas de amor, é, saber da possibilidade de sentir friozinho na barriga e uma felicidade imensa ao lado daquela pessoa, por  algumas horinhas, pessoa especial. O que fazer depois? Arrisque.Só saberá se vale apena, assim. Tentando. 



20 de nov. de 2011

O gostoso é amar


Ele ainda toma-me. Por dentro, por fora e nos pensamentos. Intensivamente. Sou dele, como no primeiro dia. Ah, aquele dia em que esqueci quem sou e entrei na fornalha do teu corpo. Eram nós dois. Dois que são uma coisa só.  E fiquei ali,  completamente em você. Cheia de esperança, a acreditar nos gestos, nas palavras, nos carinhos. Em algo no coração estranho, até então.  Até você aparecer e ir embora.

Chegou assim, sem apresentar quem é. Acalentou uma alma agonizante e, em cada beijo, uma vibração mágica que me levava a sonhar. Igualzinho como te vejo agora. Na despedida, que não houve. Ficou apenas numa imaginação ridícula. Você a olhar  fundo nos meus olhos sem dizer uma palavra, nem suspiro. Em silêncio profundo fugiu ao encontro de outra alegria ou amargura qualquer. 

Cá estou....de tempos, em tempos num nostálgico paladar, numa visão emética ou numa  audição contínua daquilo que foi nossa trilha romântica. Gozado, o vento que te trouxe, não foi o mesmo que o levou embora e não é o que o deixa ainda vagar dentro de mim. Por incrível que parece amar longe é tão sublime, quanto excitante e gostoso! Amo-te simplesmente por que faz parte de mim.

14 de ago. de 2011

Boi, meu pai



Ele insistiu tanto que minha mãe agüentou as insuportáveis dores e contrações. É que eu estava pertinho de vir ao mundo, no dia 5 de junho de 1980. Mas, seu Luiz, meu pai, o Boi, como eu o chamava, queria ouvir meu primeiro choro somente no dia 6. E assim foi. Minha mãe conseguiu me expulsar daquele cantinho quente exatamente uma hora da manhã e durante onze anos comemoramos juntos nossos aniversários.

Boi morreu há 20 anos. O esportista jovem, alegre e brincalhão nos deixou com a idade de Cristo.

Ele me chamava de Piu, por conta da música do Trem da Alegria “Piuí Abacaxi”. Eu cantava errado e dizia piu abacaxi toda vez.

As coincidências entre nós são infinitas.

Escuto sempre de algum conhecido que sou a cara dele. Boi era bonitão. Alto, branco, cabelos claros. dizem que pareco por conta da cor da pele, da altura, da estrutura física (magra), só faltou herdar a cor dos olhos. Meu pai, o Boi, tinha olhos azuis. Os meus são castanhos claros. O jeito também é igualzinho. Ele era um pássaro. Adorava voar e ser livre. Comerciante e empresário vivia viajando. A cada retorno pra casa, lembro bem, uma festa acontecia. Com música, bolo e guaraná. Celebrávamos porque ele gostava disso. Era um farrista, um boêmio nato.

Boi fazia todas as minhas vontades e a criança aqui não foi nada fácil.

Soube como homem e pai dedicado, ensinar, em pouco tempo de vida os valores morais. Homem simples e de fala mansa sabia orientar com inteligência. Aos nove anos chorei por que ao invés de manteiga tinha margarina na mesa. A resposta foi uma lição.

- Sente e coma. Isso é o que seu pai pode comprar.

Outra lembrança é a do cara humano e carinhoso. Boi nunca teve apego a bens materiais, dava dinheiro aos necessitados e tinha sorriso no rosto sempre. Queria somente viver e ajudar, ajudar e viver, viver e ensinar.

Minhas tias, coitadas enlouqueciam com as maluquices dele. Boi perturbava os namorados das meninas toda vez que uma ia apresentar a meus avôs. Mas também era confidente, parceiro e amigo.

Até de mim, uma inocente criança entrando na “aborrecência”. Pouco antes de morrer chamou-me no canto e perguntou se eu tinha namorado. Como uma menina de onze anos poderia ter namorado? Foi então que contei que um menino do colégio havia me roubado um beijo e achava que estava gostando do rapaz. Foi nossa primeira e única conversa sobre o amor. E ele nem me repreendeu.

Boi queria que aprendesse a ser independente cedo. Segundo minha mãe, ele queria me dar à chave de casa aos quinze anos pra chegar a hora que bem quisesse. Tinha mais: estava juntando dinheiro para quando completasse 18 anos me presentiar com um apartamento. Queria que aprendesse a me virar sozinha. E aprendi.

Esse era Boi. Ah, ele amava esportes e me ensinou também a gostar. Era campeão baiano de Rally. Toda vez que chegava na escola para pegar eu e meu irmão com aquele carro colorido meus amigos iam pra cima. Virava atração. Ele adorava colocar todo mundo no carro e levar para pizzaria da esquina. E assim, me ensinou a superar limites e encarar desafios

Boi era um cara envolvido com esportes e cultura. Tocava piano e encantava com sua generosidade.

Fico pensando como seria nossa relação hoje. Como estaria orgulhoso de mim e vice e versa.  Seria um pai corujão, não sairia da frente da TV só pra ver minha matérias, ficaria ligado no rádio o dia inteiro pra me ouvir,e, quem sabe, estaria até dando conselhos amorosos no Confessionário. Boi adoraria ler minhas poesias e viajar comigo para os lugares inusitados que invento.

Essa história de herói é muito clichê. Boi, simplesmente, foi Boi. Um pai único. Ele parece que sabia da sua morte precoce. Talvez por isso, queria apressar o curso do rio e nos ensinar tudo o mais rápido possível. Talvez por isso, queria que soubesse o quanto me amava e o quanto éramos tão ligados. Dois que são uma coisa só, sabe.

Bom, Boi seguiu o rumo natural da vida, mas a vida também me deu de presente outros Pais. Meu avô e tios presentes até hoje! 

7 de ago. de 2011

Qual o propósito de sua vida?



Até outro dia tinha convicção de que nasci para fazer a diferença: ser celebridade, ter muito dinheiro, casa luxuosa, viajar mundo a fora, beber os melhores vinhos, ter reunião com o presidente do país, fechar negócios e ainda, ajudar os necessitados. O objetivo era marcar meu nome na história do mundo. Sempre fui uma menina ousada, segundo minha mãe. E, ousadia, é a força motriz dos bem sucedidos. Ela dizia que aos quatro anos já demonstrava meus talentos artísticos. Desfilava pela rua com roupas e sapatos que roubava do guarda-roupa dela. Totalmente desengonçada, na verdade, bem esquisita. Pra tomar injeção xingava feito gente grande e obtinha uma força absurda na luta para afastar a enfermeira. Eram necessárias três pessoas para fazer a aplicação. Uma simples agulhada virava um combate. Mamãe achava que estava possuída. Aos 8, sonhava em casar. Só usava roupa branca e andava com buquê de flores nas mãos. Aos 12, no auge da rebeldia, jogava bola com os moleques da rua e vivia na igreja assistindo aos casamentos. Aos 15 copiava Che Guevara, lia Marx e aplicava o meu estilo de comunismo na defesa dos oprimidos e, na minha, própria defesa, acabei com o pagode que rolava aos domingos no bar ao lado do meu lar doce lar. Sem saber que mais tarde estaria “amarrando o tchan, segurando o tchan..tchan..tchan!”

Sim, voltando ao pagodão lá da rua foi simples: ameacei o vizinho de dois metros de altura, musculoso e terrivelmente mal-humorado com meia dúzia de ovos de quintal, água quente e algumas palavras tipo:

- Você sabia que existe lei do silêncio? Já denunciei a polícia. E tem mais: se não acabar com essa baixaria você vai sair dessa casa que transformou em um pardieiro brega de pessoas alcoolizadas e safadas agora!

É que a casa onde o vizinho fez um bar estava no meu nome. Papai havia deixado antes de morrer. Então, passei a ser autoritária aos 18 anos, numa vitória esplêndida. Acabei com aquele horror musical e baixo astral! Mas fui embora da rua logo depois pra outro estado. Entrei em uma faculdade de loucos. Virei jornalista. Mamãe diz que escolhi a profissão por que queira aparecer e tinha razão. Acho que foi de tanto ler Capricho e as revistas de celebridades. Tinha convicção de que casaria com Maurício Mattar ou Marcelo do grupo Dominó, que moraríamos em uma bela cobertura no Jardim Botânico, teríamos dois filhos e apresentaria o Jornal Nacional. No começo foi assim. Desfrutei de um glamour digno de estrela de cinema. Vi minha foto ser publicada nos jornais e sites, conheci lugares que nunca antes imaginava pisar os pés, alguns, em viagens difíceis atrás de notícia. No afã de ser livre lá vai eu soltar de pêndulo e, depois, acordar no hospital com sete pontos na cabeça. Bebi os melhores drinks e, até, aprendi a falar adequadamente:

- imagino como seria sorver um vinho numa taça de borda fina e haste longa

Fiquei hospedada em hotéis chiques, vivia em reunião...não de negócios, mas de pauta dentro da redação para lavar roupa suja. Ah, estive com o presidente várias vezes e o máximo que consegui foi uma entrevista agachada depois de muitos empurrões do segurança e de outros jornalistas. A vida sempre foi uma loucura – diga-se: correria. Da casa para rádio, da rádio para televisão, da TV para curso de pós e assim foi até os 30 anos quando larguei tudo para pensar no meu propósito de vida.

Não casei com celebridade e perdir o sonho de entrar na igreja de véu e grinalda.  Jornal Nacional? que nada,  apresentei apenas o telejornal local e filhos só Deus sabe quando. Algumas vontades continuam aristocráticas, mas meu salário é de proletariado.

 Alguns dizem que o propósito é ter sucesso, ser feliz, ter família. Calma, não sei qual o meu propósito, ainda. De uma coisa tenho convicção, sempre quis ser eu. E o meu eu me leva para a simplicidade. Na minha casinha, com poucos amigos e família, ouvindo minha coletânea de CD, lendo as centenas de livros da biblioteca, vendo o azul do mar, sentindo a brisa acariciar o rosto que um dia foi jovem e inconseqüente.

De uma coisa tenho certeza, tudo chega na hora certa. O sol brilha pra você em algum lugar, em algum momento, com algum propósito. Deixe-o invadir!

Ô, minha história não foi conhecida pelo mundo, mas o meu mundo, diga-se - Eu e Deus – conhece a trajetória, sem glamour. Isso basta!

2 de ago. de 2011

Passado sempre presente



Dizem que é para gente viver o agora. Viver o hoje sem pensar no amanhã ou relembrar o que passou. Como? Se o maldito, aliás, bendito passado sempre aperta a campainha pra dizer: olá, estou aqui!

Eu acabei abrindo a porta para ele. Estava na prateleira no meio da minha humilde biblioteca “Os cem melhores poemas brasileiros do século”. Na semana que a nostalgia me toma inevitável seria deixá-lo de lado, assim como meu passado. Foi um retorno inesperado. Ao folhear a página amarela e ver o sentimento registrado na letra trêmula senti que, um dia, fui amada. A dedicatória era essa:

“Pra você que tem a métrica perfeita no sorriso. Que deixa os sonhos em forma de rima. Que tem a estrofe certa e o verso preciso. De sua vida em poema, uma obra prima”.

Mas não era apenas isso. Tinha muito mais. A cueca Boxer preta está na gaveta das calcinhas até hoje. Por incrível que pareça eu uso quando preciso vestir uma saia curta. Nossa!  Nessa hora vem uma sensação estranha como se ele estivesse em mim.

Destruir objetos que nos fazem por alguns instantes acelerar o coração feito o início de uma paixão não é nada fácil. Manter esses elementos é um sinal de estarmos vivos, ou que, em algum momento, vivemos algo importante.

Pelo menos, comigo é assim.

Certa vez fui pegar um documento nas centenas de papéis espalhados na escrivaninha e quem encontro: minha caixa rosa. Na verdade é meu conto de fadas. É onde guardo meus sonhos e os melhores acontecimentos da minha vida. E lá estavam dezenas de cartas, bilhetes e fotos. Havia tempo que não abria a caixa rosa. Talvez, por medo desse reencontro. Talvez, para manter distante a certeza que tentava evitar: ele ainda permanecia nos pensamentos. Um misto de alegria e tristeza consumiu o semblante que ora embarcava na carruagem do amor do passado, ora tentava expurgar lembranças antigas.

Nesse momento queria ter o desapego de um Vinícius de Moraes. Ter o desapego para fugir e, quem sabe, coragem para apagar uma linda história. Mas não consigo. Sou extremamente apegada. Pronto!

Sei lá, assim me sinto viva tendo a certeza de que estive em boa compainha. Sei também que um dia a cueca vai parar no lixo, as cartas serão comidas pelas traças, o lençol do nosso aconchego será substituído por outro. O violão.....vixe! O que farei com o violão se meus dedos paralisaram e esqueceram as notas sem você? Está bom, o violão fica em cima do guarda-roupa até ter vontade de tocar novamente, combinado? Mas, por enquanto, prefiro ver tudo pertinho, espalhado pela casa e pela minha memória.

30 de jul. de 2011

Vamos falar de amor?

Ele ainda toma-me. Por dentro, por fora e nos pensamentos. Intensivamente. Sou dele, como no primeiro dia. Ah, aquele dia em que esqueci quem sou e entrei na fornalha do teu corpo. Eram nós dois. Dois que são uma coisa só.  E fiquei ali,  completamente em você. Cheia de esperança, a acreditar nos gestos, nas palavras, nos carinhos. Em algo no coração estranho, até então.  Até você aparecer e ir embora. Chegou assim, sem apresentar quem é. Acalentou uma alma agonizante e, em cada, beijo uma vibração mágica que me levava a sonhar. Igualzinho como te vejo agora. Na despedida, que não houve. Ficou apenas na imaginação ridícula. Você a olhar  fundo nos meus olhos sem dizer uma palavra, nem suspiro. Em silêncio profundo fugiu ao encontro de outra alegria ou amargura qualquer. Cá estou....de tempos, em tempos num nostálgico paladar, numa visão emética ou, numa  audição, contínua daquilo que foi nossa trilha romântica. Gozado, o vento que te trouxe não foi o mesmo que o levou embora e, não é, o que o deixa ainda vagar dentro de mim. Por incrível que parece amar longe é tão sublime quanto excitante e gostoso! Amo-te simplesmente por que faz parte de mim.

20 de jul. de 2011

Amizade...nossa eterna amizade





 
Começo esse texto com uma pergunta ou reflexão. Você é cúmplice, sincero, admirador e fiel aos seus amigos mais íntimos e verdadeiros? Se for, sinto lhe dizer: acenda o sinal de alerta urgente, ou não. Deixe rolar. O fato é que você está entrando em um relacionamento sério sem perceber, meu caro. Um compromisso que não tem beijos na boca ou sexo. Mas pode ter certeza, tem desentendimentos e muitos, às vezes. Amizade, meus nobres, é igualzinho a casamento, com uma única diferença, dormimos em casas separadas. A forma de estabelecer o contrato segue o tradicional juramento: “Na alegria na tristeza, na saúde na doença até que.... uma briga nos separe”. Como diria minha avó, a única coisa que escolhemos é o nosso companheiro, os amigos surgem ao longo da estrada. Cada um embarca em determinada estação e o trem segue acumulando o ônus e o bônus dessa longa viagem ao descobrimento da vida. É certo que algumas pessoas passam, sem ao menos, serem notadas e descem na estação do valeu! Outras permanecem tanto tempo no vagão que cultivamos vínculos eternos tamanha semelhança e carinho que adquirimos com a convivência. Essa maldita palavra com poder de unir e desunir. Convivência e intimidade – pronto, outra palavrinha destruidora de relações – são como forma de tratamento.

- Oi, prazer em conhecer

- Até logo. Não quero mais te ver

Na verdade amizade é coisa complexa que nos deixa desanimados e felizes. Mas, sabemos que, em uma esquina qualquer eles (amigos) estarão lá. Estarão para dividir segredos, emprestar o ombro, chorar o seu choro, te levar para o mundo dele e conhecer os seus gostos, brincar feito crianças, viajar, olhar o pôr do sol, discutir filosofia, ouvir música e na depressão ver filmes. Nossos amigos também estarão lá para emprestar uma roupa para usar na festa chique, contribuir com alguns trocados, pagar a conta do bar quando estiver sem grana, beber juntos e te colocar no chuveiro quando estiver de porre. Eles podem ainda cobrar atenção e quando lhe faltar tempo para ouvi-los surgem os questionamentos incontestáveis:

- você está individualista.

- Não tem tempo para mim.

- O que está acontecendo?

Amizade carrega um sentimento nada saudável: ciúme. Que você tem de lidar. Tudo isso é gostoso, afinal sem os amigos (a) ficaríamos como almas vagando sem destino. Sem ter com quem conversar, brigar, rir e chorar. A vida sem eles seria extremamente sem graça. Um brinde as minhas maridas e meus maridos, como chamo os mais chegados amigos!


19 de jul. de 2011

Intimidade é F@#$%

Chego do trabalho e você está sentado na latrina de porta aberta. Grita “Mô”, como foi o dia? E, insatisfeito, me chama para conversar. Eu fui nada. Um fedor de lascar exalando pelo corredor da sala e do quarto, eu me piquei pra cozinha e preparei um sanduíche. Fiquei olhando para o relógio vendo o tempo das nossas vidas passar. Ops! Lá vem ele, beija-me na nuca e depois desfila pela casa de cueca.No primeiro momento suspirei: hummmm...mas é numa entonação de... que porra é essa? Tinha percebido que minha delícia já não é tão saborosa assim. A barriga está enorme, uma jaca verde e a bunda com algumas espinhas que ele nem sabe que tem, mas vai sentir logo quando sentar no sofá. De lingerie, tomada banho, deito pra descansar. O dia de serviço foi tenso e puxado. A noite está fria e uso uma coberta grossa. Na verdade queria o aconchego do meu bem querer só que ele não está nem aí para os meus calafrios e carinhos. Dorme profundamente até ser acordado, assustado, com o meu intenso, Aiiiiiiiii que horror! Ele tinha dando um PUM embaixo na coberta. Pela manhã acordo atrasada. Banho de gato, pego a primeira roupa que vejo na gaveta e meu fofinho já está na mesa tomando café. Pego uma maçã e em vez do beijo de despedida ouço o grosseiro arroto na cara. Na verdade não o culpo, o principal mostro da nossa relação é a intimidade. Ô palavrinha que corta qualquer tesão. Se você ainda não chegou a esse estágio, cuidado. Previna-se imediatamente porque o desrespeito a privacidade e a falta de espaço para individualidade adquiridos com a famosa convivência podem deixar o sexo mecânico e sem graça. Regue a flor do amor e subtraia hábitos terríveis da relação, ou, caso contrário, vai se dar mal. Lembre-se da época em que fazia de tudo para esconder a diarréia ou quando tirava o sapato fora de casa para ninguém sentir o chulé. Lembre-se do início do namoro: frio na barriga, tremor nas pernas, taquicardia e a falta de ar. Tudo com a intimidade comedida. Na verdade intimidade é coisa séria. É foda!

18 de mai. de 2010

Cenas românticas no cinema




O choro da reconciliação. Aquela troca de olhares. O  beijo rompante. Música de fundo. Hummmm, quanto coisa boa, né? Pois é, ao longo dos séculos  a indústria cinematográfica  nos levou as mais emocionantes sensações com cenas românticas entre casais apaixonados. Tenho as minhas favoritas:
A despedida entre Rick e Ilse em Casablanca, no aeroporto. Ela indecisa entre o marido, um ativista antinazismo na segunda guerra e Rick, sua grande paixão. Podem discordar.  Mas a cena em que Piaf recebe a notícia da morte de seu amante, Marcel é cheia de virtudes românticas: tem paixão, esperança, dor, sofrimento....
Nas cenas de chuvas estão as melhores emoções. Em Diário de uma Paixão, destaco o passeio de barco. O casal briga, depois vem o beijo apaixonante!  Um amor que supera o tempo, as adversidades, a classe social, a guerra....
O filme As pontes de Medison me emociona até hoje, quando revisto.  Meu coração palpita de um jeito na cena em que Francesca, Mery Streep, rompe a relação com o amante, Robert, Clint Eastwood. Ela sai do supermercado, entra no carro vê o amante do lado de fora. Os dois se cumprimentam com um leve sorriso. E Ela vai embora com o marido. A poesia está justamente  no momento em que ela coloca a mão na maçaneta para descer do carro. Sacramentado o desejo!
Jack e Rose, em Titanic têm o seu lugar. O sexo no carro, mais agressivo do que romântico. E a famosa cena do "Estou voando Jack" .
Para encerrar, a simplicidade de Antes do Pôr do Sol. Tem final mais lírico, poético, sensual do que Celine cantando pra Jesse a valsa que compôs.  Na letra, a história de um dia de amor vivido em Viena. Momento inesquecível!
E vocês?  Sugiram, por favor.

17 de mai. de 2010

Robin ou Gladiador



Olá gente,

Depois de um tempo afastada, por desleixo mesmo, volto com todo vapor. Desta vez prometo não deixá-los órfãos “culturalmente”. Vamos falar da mais recente estréia aqui em Salvador. Vi o filme sábado.

Esqueça tudo que já ouviu falar sobre Robin Hood. Nada de roupas verdes, chapéu com penas ou cavanhaque. Este Robin Hood é a versão ligth de Gladiador. Menos pesado, claro. Mas porque até hoje acho que Roussell Crowe nunca deixou de ser  o lutador de leões?  Bom, voltando ao filme... logo nos primeiros minutos me pergunto: onde vai surgir a história do bom ladrão? Criei essa expectativa. Sim. Mas o verdadeiro Hood que conheço do folclore inglês aparece no fim. A história explica a origem desse Bom Vivant antes de ganhar a fama de defensor dos pobres e oprimidos e de virar lenda. O maior trunfo deste Robin Hood de Ridley Scott é o roteiro, por sinal, sugerido pelo próprio Crowe. Com diálogos bem construídos tem uma pitada de humor sarcástico sensacional! Entre os destaques, me chamou a atenção a batalha na praia, quase impossível não lembrar de Tróia. Lady Marion Loxley (Cate Blanchett) é outro destaque. Ela ganhou uma versão menos conservadora, mais decidida e trabalhadora. Mas ainda continua com a cara mau-humora e nervosa dos quadrinhos.  Os locais escolhidos para as cenas das cruzadas – florestas- são um capítulo a parte.  Robin Hood não é um filme pra chocar, mas vale à pena! 

30 de mar. de 2010

Desafio do destino

Carne Trêmula, de Almodóvar é algo surreal. Pela primeira vez o diretor supervaloriza a figura masculina em detrimento do que Ele mais gosta de tratar nos seus filmes: mulher. A história é de um homem rejeitado que por acidente vai preso, após ter atirado em um policial. Um teia de relações se forma em torno do personagem. No final ele acaba com a mesma mulher do início do filme, aquela que havia o deixado de lado anos atrás. Adoro a leveza e a lentidão das cenas. Da sensibilidade dos diálogos e da construção dos personagens. Javier Bardem está excelente na pele do PM de cadeira de rodas. Show!!

12 de out. de 2009

Um menino chamado Carlinhos

- Vá com Deus Aline. Deus te abençoe.

Fecho a porto do carro e Ele vai embora . Na minha memória visual ainda está à imagem daqueles olhos miúdos cheios de lágrimas me pedindo alguns trocados. Na memória olfativa, ainda sinto o cheiro de comida podre, de madeira queimada, da cola e da fumaça impregnadas no corpo do moleque que, minutos atrás, me cercava como marimbondo em fúria pelo ninho destruído.

Carlinhos tem 13 anos. Cabelos tingidos de um amarelo encardido. As roupas sujas e rasgadas parecem ser as únicas. Nos pés, o chinelo desgastado pela ação do tempo. Nas mãos, segura um pote de cola e, subestimando minha inteligência medíocre, abusa de uma educação invisível para quem aprende, nas ruas, as lições da vida. Carlinhos se aproxima, sem ser hostil, e me trata como se fosse velha conhecida. Estava na Praça dos Mares em Salvador gravando uma passagem ( quando a repórter aparece em vídeo) para série de reportagem Infância Perdida. O cenário era perfeito para o meu texto. Precisava de um local onde houvesse meninos lançados à sorte. Lá encontrei não só o Carlinhos, mas uma dezena de outros meninos abandonados. O Carlinhos, sem dúvida, foi quem mais me cativou. Ele até gravou entrevista. Contou o seu drama. Uma história já de derrotas para quem começa a engatinhar na longa estrada da vida. Ele fugiu de casa porque apanhava da mãe e convivia com o alcoolismo do pai. Nas ruas aprendeu a cheirar cola e crack. No final da entrevista o menino me pediu para lhe pagar uma água de coco. Quando terminou de beber fez questão de me levar até o carro de reportagem, com o cuidado sensorial, de me salvar do atropelamento que seria inevitável devido a minha distração. Ele puxou meu braço com força de adulto me olhou e disse:

- Já pensou uma celebridade morta tão jovem

Fiquei sem ação. Apenas lhe dei um levo sorriso. Carlinhos se despediu pedindo, como um filho, que ainda não tive, para lhe tirar “desse mundo”. Pediu mais: que o encaminhasse a um centro de recuperação. Aquilo mexeu de uma forma comigo que prometi levá-lo para ser tratado. Não sei como farei isso, mas sinto que preciso mudar o rumo de uma criança sem destino, sem esperança, sem afeto.






29 de set. de 2009

O retorno

Li tantos blogs nos últimos dois dias que bateu em mim a vontade de continuar escrevendo aqui, nesse espaço, onde a tela branca é  a principal companheira das horas mornas no quarto amplo de perguntas, dúvidas e sensações. Acho que posso começar falando dela, certo? Errado. Na verdade nem sei por onde, quando e como iniciar. Porquê quando bate o desespero, a falta de inspiração, largo essa imensidão fria da tela - lembra-me a neve dos Andes - e vou correndo pra cozinha buscar algo para comer?

Ops,  voltei com um pote de frutas secas. É sempre assim, uma palavra, uva passa na boca, pausa para pensar, mais palavras, ufa! uma sentença completa, outra rodada de passas, surge nova frase, provo o figo, paro no parágrafo enquanto saboreio o damasco, digito o ponto final, pronto! celebro com nozes, ai que maravilhosas nozes.

Escrever não é uma arte solitária. Se depender das minha compainhas estou frita. Fico cega de tanto ver reluzir o branco florescente em meus olhos e gorda com tantos petiscos ao lado.

Pensamentos + comida = textos, será?

5 de jul. de 2009

No futuro, Michel


Qual é o critério para a construção de um monumento na cidade em memória à determinada pessoa. Seria a importância que ela teve para nação, devido a luta social? Os relevantes serviços prestados nas áreas de cultura, segurança, esporte? Ou basta ser o rei do pop? Nada contra Michael Jackson, por sinal, o admiro como artista. Mas a ideia de se construir em salvador um monumento ao astro da música pop é um tanto demais. É um desrespeito aos artistas baianos, que por sua vez, estão à beira do esquecimento. Poderíamos homenagear criaturas como o rei da copoeira mestre Bimba, os sambistas Riachão e batatinha, enfim...

Essa ideia partiu de João Bosco, presidente da associação dos empreendedores afro-brasileiros durante a segunda conferência nacional de promoção a igualdade racial, em Brasília. A proposta motivou a declaração, um tanto, excêntrica, do secretário municipal de reparação social, Ailton ferreira. Ele disse que “Michel ajudou muito a elevar a autoestima do povo negro”, sem saber ele que o popstar morreu mais branco do que um sueco. E, sobretudo, rompeu com todos os laços de sua raça. A declaração causou burburinho entre os vereadores.

 Entidades ligadas ao movimento negro repudiaram a iniciativa. Por outro lado, outras, como o Olodum decidiram comprar a briga. O bloco afro será um dos financiadores do monumento. O diretor do Olodum comparou Michel com Nelson Mandela, que inclusive tem um busto aqui na cidade. Só que antes do monumento, há uma tetativa de se criar uma placa, no largo do pelourinho, para informar a todos que o cantor esteve lá durante a gravação do clipe “they don´t care about us”. Como se nós não soubéssemos disso. A polêmica está levantada. O rei do pop, o maior artista do século XX deve ser homenageado com um monumento em salvador? Já pensou se a moda pega. A cidade vai ficar empesteada de busto de reis e rainhas: Xuxa, Daniela Mercury, Roberto Carlos, Pelé........Está na hora da gente parar e pensar um pouco mais na saúde, educação e segurança. Desculpem os fãs fundamentalistas de Michel Jackson, mas é necessário rever os conceitos. Chega de tanto estrangeirismo! Já fomos programados demais para receber os enlatados que “eles lá fora” nos empurram.

24 de ago. de 2008

Maldita vaidade


Sai do trabalho com uma missão: comprar o presente de minha prima. O aniversário estava marcado para 20h. Fui ao shopping Barra, mas não precisei rodar a procura do algo que lhe agradasse. Olhei a calça branca com alguns brilhos na frente e detalhes, pequenos traços em preto nos bolsos de trás. É essa! A fila do caixa para minha felicidade estava praticamente vazia. Havia um casal na frente, só. Paguei. Ao seguir em direção ao estacionamento precisei subir três vãos de escada rolante. Na última, ao virar a esquerda, deparo-me com a luxúria: o salão. Ah, salão de beleza, estabelecimento que toda mulher adora, eu, entretanto, abomino. Era como se todos os serviços oferecidos ali estivessem querendo se apossar de mim. “Entre, entre, venha, venha”. Os pensamento martelavam na minha mente como zumbindo de música quando escutada próxima a uma caixa de som. Zummm. Irritante!

Frações de segundos, três passos a diante e estava eu dentro daquele mundo ilusório. Sabia que custaria uma fortuna. Enfim, queria ser rica, uma vez na vida. Me senti igualzinha àquela senhora de 45 anos fazendo unhas ao preço de 25 reais. Sem perguntar o valor de nada pedi para cortar o cabelo. Sentei e veio Patrícia. Uma simpática morena, magra, de cabelos crespos com escova definitiva. Fiquei na dúvida, quase levanto. Não era aparência dela. É que estou em crise com os meus próprios cabelos. Eles estão inchados. Não posso mais dar escova inteligente, definitiva, progressiva, tanto avanço, em mim nada pegou. Confiei em Patrícia. Afinal, dizem que cortar cabelos rejuvenesce e renova as energias. Precisava dessa transformação. Cada fio caído era um pedaço meu que despencava. O apego estava ali.

Porquê salão de rico demora tanto para tirar algumas madeixas? Uma hora. Pega dali, estica daqui, troca de tesoura, lava cabelo, volta pra retocar o corte. Aquilo tudo me sufocou. Mas tinha que manter a linha. Do meu lado direito chegou uma dondoca. A mulher tinha uns 60 anos. Unhas postiças, cabelos ruivos grandes, até agora me pergunto se não era uma peruca, o rosto todo de botox. Chegou falante e exigindo. A cabeleireira faz sinal para Patrícia. Expressão de: “Nossa vem aí à chata”. Meus olhos fitaram o espelho, os cabelos estão acima dos ombros. Derramei uma lágrima sem ninguém notar. Disfarcei com elegância. Patrícia começa a escovar. Aos poucos os meus doces cabelos castanhos ganham formato. A auto-estima cresce.

 O corte chanel tirou as pontas quebradas, ficou com mais volume. Na hora da conta, Patrícia facilitou, viu minha cara de pobre coitada e não cobrou a escova. Estar na mídia tem essas vantagens. Resultado. R$ 75,00. R$15 só da lavagem, coisa que faço rotineiramente em casa. Doeu no bolso. Mas o problema foi o dia seguinte. Ainda desfrutava do meu novo visual quando alguns pingos, depois a chuva destruiu o trabalho de horas. O cabelo encolheu! Esqueci que quanto mais curto, mais enrolado fica. Aí foram outras tantas horas na frente do espelho, em casa, decifrando o mistério da raiz. Formato, nascimento, crescimento. Os fios, metade liso ainda resquícios do tratamento para alisar, metade com ondas, obra do crescimento mês a mês, metralharam meus olhos como se dissessem. Não se desespere. Você será eterna escrava da chapinha.
Maldita vaidade!

27 de jul. de 2008

Minha incenssibilidade

Para que serve a insensibilidade? Para nos levar ao fundo das emoções mais secas e geladas. Não, não é o estado de espírito que fazem meus olhos fitarem o horizonte sem apreciar o nascer do sol. Não, não é o mau-humor que deixa sem sal o oceano. O lindo verde do mar, preto, como uma nuvem no céu a anunciar longa tempestade. Não, não é minha frieza a causadora da falta de graça e beleza na minha vida. Não, não é minha tristeza responsável pela frigidez no trabalho, pela monotonia no dia-a-dia, pelo afastamento das pessoas, pela fuga de mim mesma.

Prefiro crer em Vinícius de Moraes quando diz: “Que a tristeza é a melhor coisa que existe”. Mas nem Vinícius, o maior de todos os homens sensíveis do planeta consegue mais provocar arrepios com Chega de Saudade, nem acelerar os batimentos cardíacos quando escuto seu clássico, Felicidade. Talvez, por que de manhã escureço, de dia tardo, de tarde anoiteço, de noite ardo. Numa sensação efêmera de fim sem volta. É o amor, simplesmente, o amor em excesso ou a falta dele que faz perder a sensibilidade. Olhar tudo ao redor e ignorar a magia. Desprezar o ser humano sem o mínimo de lampejo. O que sou Eu. Um moribundo à beira da estrada. Vendo o vulto daqueles que passam naquela espera do bem outrora. O dia já se foi milhões e milhões de vezes. Mas eu sei: hei de capturar o sentimento sublime. Para ser igual a Vinícius, eterno enquanto dure!

24 de jul. de 2008

O tempo muda


15h.  O tempo não está bom. Um presságio, talvez. Ultimamente chove, faz sol, chove, aparece o arco-íris e sol de novo. A tempestade ainda está por vir. Recebo a ligação do chefe de reportagem.

-Aline, vá correndo para um protesto na Avenida Paralela.

Ao sair do Instituto de Mamíferos Aquáticos muito próximo do local da manifestação percebo o tamanho do problema. 15h:30m conseguimos chegar até a FTC, foi só. O engarrafamento já era absurdo. Até então a única informação é de que moradores fecharam à pista. Não passa nada. De um lado motoristas impacientes. Do outro, centenas de pessoas desistiram de esperar. Desceram do ônibus e continuaram a viagem a pé. Caminharam por quilômetros até o destino, sabe-se lá onde. Muitos arriscaram correr do nada para lugar nenhum. 15h:45m o engarrafamento é de 6 quilômetros. Por um dia a capital Bahia transformou-se em São Paulo, a Marginal Tietê dos baianos. E quanto mais os ponteiros do relógio giravam acelerados mais o caos era evidente. Para chegar até o protesto, em frente ao Bairro paz, tive que andar durante 20 minutos, de salto alto ainda por cima. Um senhor grita: É absurdo!

A mulher no táxi está desesperada perdeu o vôo para São Paulo e o taxímetro já marca R$90 reais e pelo visto sem perspectiva de parar de girar. Vejo a barricada de pneus e galhos de árvores pegando fogo. Ao fundo da fumaça escura surgem jovens, adultos, crianças, homens, mulheres, idosos. Uma única faixa diz: Estamos de luto. Escuto berros. Vozes eufóricas em uníssono ritmado.
“Cadê a polícia na hora da chacina....
“Cadê a polícia na hora da chacina.....
Nada como experimentar a sensação de viver num conflito armado. Tensão é pouco. Poderíamos ser mais uma vítima da violência urbana. De quem, do quê?

A barreira policial se forma. A população afronta. Sem negociar policias intercedem com truculência. Um rapaz é agredido. Estava sentado no chão da pista é retirado por um PM a força que o pega pelos cabelos e atira a cabeça do coitado no asfalto. 16:30 o confronto fica intenso. A polícia ameaça retirá-los do local e liberar a via. Cria-se um estado de guerra. O Major tenta controlar, mas os manifestantes são intransigentes, prometem liberar a avenida somente com a presença do Secretário de Segurança Pública da Bahia.

17:15 o policiamento é reforçado. Chegam homens da choque e PMs motorizados. Até o agrupamento aéreo sobrevoou a região. A noite cai e eles continuam incendiando a pista e a vida de milhares de cidadãos. Justamente esse clima sombrio e pessimista estimula os manifestantes, cerca de cem no máximo. O suficiente para fazer uma baderna. Uma desorganizada sem limites ao ponto de nenhuma pessoa se apresentar como líder comunitário. O reflexo do protesto no trânsito estende-se para Orla, Avenida Bonocô, Vasco da Gama e aeroporto. A cidade pára!

18h os manifestantes se abraçam. Fazem um cordão humano e andam juntos em direção ao bairro da Paz. A polícia se prepara para agir. Em uma das mãos, cacetete, na outra, gás lacrimogêneo. Em meio aos gritos de guerra, lá no fundo murmura a voz: "só queremos passar. Vamos embora". Policias não entendem e seguem em direção a comunidade rebelada. Outros gritos de parem, parem, parem se sucedem. Até que o Major entende e manda cessar a ação de confronto. Eles vão. Passam pelos militares enfurecidos, emburrados, doidos para meterem o pau. Eles vão unidos por um ideal, a Paz. Eles vão e param na entrada do bairro onde mais uma chacina aconteceu. Eles param ali, enquanto cinco resistentes seguem até a Secretaria de Segurança Pública.

Volto para redação com embrulho no estômago. Não sei se é fome, o balanço do carro ou enjôo. Retorno às 21h ainda há congestionamento. Em pouco tempo, três horas no máximo de rebelião dos libertos revoltados noto o quanto a população tem força para mudar e dominar.

21: 30 a cidade ainda sente o clima de mistério e negativismo. Chove forte. Venta muito. Subo cinco andares refletindo o ocorrido. Lentamente enfio a chave na maçaneta, abro a porta. Escuto sons repicados. A televisão está acesa, mas não há ninguém. Sento, observo ao redor. Lá está ele, o fundo opaco e vazio da solidão. Enterro-me silenciosamente, no conflito interno, só meu. O meu inferno astral.